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Entrevista com... Ricardo Melo PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Por Rui Fidalgo. Fotos: Rui Pestana   
Terça, 11 Agosto 2009 00:00
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Vencedor das provas de 24 horas 
O homem das 24 horas
 

 

 

 

Já ganhou o Transportugal, as 24 horas de Monsanto, de Coruche, de Castelo Branco, de Proença-a-Nova, e de Lordelo.

Gosta de provas de longa distância para testar os seus limites, mas é a paixão pelas bicicletas que o faz aguentar. Ricardo Melo é o homem das 24 horas, uma prova de BTT que é um desafio ainda maior para quem, como ele, com 41 anos começou a competir só há seis anos. Sem o seu staff de apoio ( Sandra Correia, sua  namorada) confessa que seria impossível terminar as provas e conquistar o que já conquistou.

E promete que não fica por aqui.

   

 
 

Como começaste nestas aventuras das 24 horas?
Gosto de longas distâncias que me permitem desfrutar mais do BTT e da paisagem. Quando soube que havia uma prova de 24 horas, em Vila de Rei, decidi participar. Isto foi há uns anos. Quando dei por mim estava em primeiro lugar, no final acabei por ficar em segundo, mas fiquei contente na mesma. Daí para a frente decidi fazer mais provas.  

Antes disso, já competias?
Já, tudo provas de longa distância.  

Como é que te preparas para as provas de 24 horas?
Acima de tudo logisticamente. Tento nas semanas antes fazer uma distância mais longa do que o normal, mas o meu treino já é de distâncias longas. Tento descansar o máximo.  

E a alimentação antes da prova?
É a mesma, reforço um pouco mais os hidratos de carbono, à base de massa, e legumes que contenham mais ferro.   

E tens cuidados especiais com a bicicleta?
É importante certificar-me que tudo está bem. Que os pneus estejam novos. Além da bicicleta é importante ver o percurso antes da prova, de bicicleta devagarinho ou a pé, ver se há zonas perigosas, tentar fazer um estudo do terreno. Ver se existem zonas com vidros, no ano passado andei a limpar parte do percurso de Monsanto, porque é um factor perigoso, existem muitas garrafas partidas.   

Como é composto o teu staff de apoio?
É o mais importante. O que faz com que uma prova corra bem, quer seja para ganhar ou para terminar, é o staff. No meu caso é a minha namorada e sem ela seria impossível.  

Como é que o trabalho é coordenado?
Ela durante a prova contabiliza todas as minhas voltas, as voltas de todos os participantes que estão próximos de mim, vai-me informando das distâncias e do que preciso para a próxima volta, para estar preparada. Ela fica acordada as 24 horas. Com esta ajuda, só estamos preocupados em não ter um furo, em comer e beber e estar com atenção ao percurso.  

Usas comunicação?
Não uso. Foi uma situação que ponderei, é útil.  

E ouves música?
Não.  

Em média quanto tempo páras durante uma prova?
Tento parar um mínimo possível, mais do que um minuto é muito. No global das 24 horas, pode ser uma ou duas horas, depende da posição em que esteja.  

E durante a corrida que alimentos é que ingeres?
Para além de barras (energéticas), água é fundamental, bebo o isotónico, o energético, o gel. Bananas e massa, às vezes ovo, a clara que é a parte que tem proteína.  

O que é que pensas durante a noite?  
Penso, mas acabo por não concluir o pensamento, estou sempre a pensar no percurso, se estou a comer bem, se estou a beber bem. Quando estou a chegar ao abastecimento, penso no que quero para a próxima volta e às vezes quando chego lá esqueço-me. (risos)  

É bom o nascer do dia, depois de teres tido a noite toda a pedalar?
É bom, porque sabemos que vão faltar duas, três ou quatro voltas, depende. Há uma coisa que acaba sempre por afectar toda a gente, principalmente no Verão, que é o Sol por volta das 10 da manhã, pelo calor e pela luminosidade. E à noite também há ali um momento mais difícil, mas os outros participantes ajudam. Se me pusessem a correr 24 horas sozinho, se calhar não ganhava. Os outros participantes também dão ânimo.  

Tens noção do peso que perdes numa prova?
Na de Monsanto perdi 3 quilos, foi demais.  

Quanto tempo depois destas provas voltas a sentar-te numa bicicleta?
Varia, nesta última tive três dias sem andar. Nas outras, às vezes, estou só um dia a descansar.  

Costumas pensar no que significa fazeres 360 kms que foi o que fizeste nesta prova?
Podias ir daqui até à Guarda ou ir e vir até Coimbra. Tens noção?

Não tenho. Quando terminamos consciencializamos primeiro: “fiz 24 horas” e só depois “fiz x quilómetros”. Toda a gente fala nisso.   

Qual foi a prova que te deu mais gozo?
Falando em 24 horas, foi a de Lordelo, foi uma prova que fiz há uns anos. Gostei  porque estava bem organizada. Coruche também gostei pela parte técnica, tinha uma descida que eu gostava de fazer, muito rápida, era preciso ter alguma técnica. É difícil dizer, gosto de todas um bocado. Provas de vários dias, gosto muito do Transportugal, sem dúvida, aconselho toda a gente a fazer, nem que seja só o passeio. No estrangeiro há uma série delas...  

Já tiveste provas no estrangeiro?
Tive no Transalp numa equipa de pares, fui com o Marcelino que é do Algarve, gostei muito, gostava de voltar. Encontrar o par ideal não é fácil, tem de haver confiança e uma parceria muito próxima.  

Tiveste bons resultados no estrangeiro?
Considero bons resultados chegar ao fim. Acabar para mim é imprescindível, o resultado não é muito importante. Quem quer ganhar tem que ter um treino muito mais específico, tem que abdicar de uma série de coisas e se calhar o prazer de andar de bicicleta já não é o mesmo.  É claro que ganhar é um prazer que satisfaz, mas é preciso ver que não tenho 20 anos, vou fazer 42 anos. 

 

Há uma grande diferença na organização das provas em Portugal face ao estrangeiro?

Sim. Cá em Portugal existem pessoas que organizam bem, outras menos bem. Noto que lá fora é diferente, existe mais empenho, porque existe mais staff, também há mais participantes, acaba por ser melhor organizada. Existem mais provas com um grau de dificuldade muito superior às nossas, com melhores condições, quer em termos de altimetrias, como de sossego na estrada. Mas, nós temos o clima e isso também nos beneficia.   

Treinas sozinho?
Acabo sempre por treinar sozinho é difícil arranjar pessoas. Ao fim de semana arranja-se mais, mas o treino é diferente. Nos dias de semana há uma solidão.   

A tua bicicleta, a Cannondale Taurine, é uma bicicleta rígida. Para as provas de 24 horas é a melhor opção?
Eu em particular estou muito habituado às bicicletas rígidas... para mim que sou uma pessoa que não peso muito, a rígida não é problema, para uma pessoa que pese mais, se calhar a suspensão total seja mais prático, mas é discutível, depende do percurso. Verdade seja dita, que numa prova de 24 horas faz mais sentido uma bicicleta de suspensão total, mas eu acabo sempre por optar pela rígida.

No estrangeiro, a opção é ter as duas. Eu acabo por gostar mais da rígida, porque não tenho experiencia suficiente para dizer que a suspensão total é a opção, penso que tem de haver um treino muito específico. Eu tive agora no Salzkammergut Trophy e diria que 80% dos participantes tinha rígidas, quem ganha tem rígidas e isso também influencia na escolha.  

Chegaste ontem do Salzkammergut, como correu?
Não correu bem, porque não terminei. A prova foi interrompida aos 130 kms, por questões climatéricas. Começou a chover desde as 2 da manhã até ao outro dia, a prova começou às 5 da manhã e ficámos todos molhados e estava muito frio. Eu na brincadeira perguntei a alguns participantes se estávamos ali por gozo ou obrigados.  Pensei em voltar para a cama, mas decidi arrancar, mas a verdade é que se tornou uma prova impossível, com uma temperatura muito baixa.  

 

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